Leonardo da Vinci, Mona Lisa (c. 1503–1519), óleo sobre painel de álamo — a pintura que Leonardo levou consigo para a França e manteve até sua morte.

Leonardo da Vinci, Mona Lisa (c. 1503–1519). Musée du Louvre, Paris. Domínio público.

Leonardo da Vinci: vida, pinturas e a mente universal

Leonardo da Vinci (1452–1519) foi o pintor, cientista e engenheiro do Renascimento italiano cujo punhado de pinturas concluídas — entre elas a Mona Lisa e A Última Ceia — definiu a ideia de gênio na arte ocidental.

24 min de leituraPublicado Artistas

Quem foi Leonardo da Vinci?

Leonardo da Vinci (1452–1519) foi um polímata italiano do Alto Renascimento cujos interesses se estendiam da pintura e da escultura à anatomia, engenharia, hidráulica, óptica, botânica, geologia e ao projeto de máquinas que só viriam a ser construídas quatro séculos depois. Menos de vinte pinturas podem ser-lhe atribuídas com segurança, e várias delas estão inacabadas; ainda assim, é geralmente considerado a figura central do período em que a arte italiana atingiu o seu mais alto desenvolvimento técnico e intelectual.

Sua importância reside tanto no que se recusou a terminar quanto no que concluiu. Tratava a pintura como uma ciência do ver, desacelerava o trabalho ao ritmo da sua observação e deixou cerca de 7.200 páginas de cadernos em que a mesma mente inquieta dissecava cadáveres, traçava os redemoinhos dos rios, projetava máquinas voadoras, esboçava as proporções do corpo humano e descrevia as regras da luz e da sombra com mais minúcia do que qualquer contemporâneo. As poucas pinturas que levou ao fim — A Última Ceia em Milão, a Mona Lisa hoje no Louvre, a Virgem dos Rochedos, a Dama com Arminho — estabeleceram um padrão de inteligência pictórica em torno do qual a arte europeia gravitaria pelos três séculos seguintes.

Vinci, Florença e o ateliê de Verrocchio (1452–1482)

Leonardo nasceu em 15 de abril de 1452 no povoado de Anchiano, nos arredores da pequena cidade toscana de Vinci. Era filho ilegítimo de Ser Piero da Vinci, um notário florentino bem-sucedido, e de uma camponesa chamada Caterina, sobre quem pouco se sabe além do nome. As circunstâncias do seu nascimento tiveram consequências que carregou pela vida toda: como filho ilegítimo, foi barrado da profissão de notário praticada pelo pai e das grandes corporações e universidades, que recrutavam seus membros entre famílias legítimas. Foi criado na propriedade da família em Vinci pelos avós paternos e por um tio, Francesco, que lhe ensinou a ler a paisagem com a atenção de um agricultor.

Por volta de 1466, quando Leonardo tinha catorze anos, o pai mudou a família para Florença e o colocou como garzone — aprendiz de oficina — com Andrea del Verrocchio, o principal escultor e pintor da cidade. A bottega de Verrocchio era uma instituição híbrida que produzia monumentos em bronze, túmulos em mármore, pinturas em painel, ourivesaria, decoração de festas e cenários teatrais para a corte dos Médici; contava entre seus aprendizes e associados com Pietro Perugino, Domenico Ghirlandaio e Lorenzo di Credi. Lá, Leonardo aprendeu o desenho do natural, a química dos pigmentos, o trabalho do bronze e do mármore, a engenharia da grande escultura pública e a retórica da composição que a nova pintura florentina exigia.

Sua primeira contribuição documentada a uma pintura acabada é o anjo à esquerda do Batismo de Cristo de Verrocchio, pintado no ateliê entre cerca de 1472 e 1475 e hoje na Galleria degli Uffizi. Giorgio Vasari, escrevendo setenta anos depois, registrou a célebre anedota segundo a qual Verrocchio, ao ver com que clareza o jovem Leonardo o superara na execução daquele anjo, abandonou para sempre a pintura em painel. A história é quase certamente um floreio literário, mas a própria pintura confirma o seu fundo: o perfil do anjo, a suavidade dos cabelos e a modelagem da face são visivelmente obra de uma mão diferente e mais avançada.

Leonardo foi admitido na corporação dos pintores florentinos, a Compagnia di San Luca, em 1472 — aos vinte anos, mas ainda vivendo e trabalhando no ateliê de Verrocchio. Suas primeiras telas independentes seguem-se logo depois: a pequena Anunciação hoje nos Uffizi (c. 1472), o Retrato de Ginevra de' Benci (c. 1474–78, hoje na National Gallery of Art em Washington) e a inacabada Adoração dos Magos (1481), encomendada pelos monges de San Donato a Scopeto e abandonada quando Leonardo partiu para Milão. Mesmo nessas obras iniciais já são visíveis os hábitos que marcariam toda a sua carreira: a recusa em delinear formas com contornos rígidos, o gosto pela modelagem tonal lenta em vez da linha e a disposição de deixar uma encomenda incompleta no instante em que um problema melhor aparecesse.

Milão e a corte dos Sforza (1482–1499)

Em 1482, quando Leonardo tinha trinta anos, Lorenzo de' Medici enviou-o ao norte, para Milão, como uma espécie de embaixador cultural junto a Ludovico Sforza, regente (e a partir de 1494 duque) da cidade. Antes de deixar Florença, Leonardo redigiu uma agora célebre carta de autorrecomendação a Ludovico. A carta listava suas qualificações em dez tópicos numerados — a maioria militar e de engenharia: pontes portáteis, máquinas de cerco, métodos para drenar fossos, dispositivos para destruir galés inimigas, projetos de canhões, escultura, arquitetura. Apenas no décimo tópico, quase de passagem, acrescentou que também sabia pintar tão bem quanto qualquer homem na Itália. A ordem era estratégica: a Milão dos Sforza estava em guerra, e uma corte precisava mais de engenheiros do que de pintores em painel.

Permaneceu lá por dezessete anos e tornou-se a figura central do projeto cultural dos Sforza. A corte encomendou-lhe três de suas obras mais importantes. A primeira foi a Virgem dos Rochedos, pintada em duas versões — a anterior (c. 1483–86) está hoje no Louvre; uma réplica posterior com a colaboração do seu ateliê (c. 1495–1508) está na National Gallery de Londres. Ambas são radicais no tratamento da luz: a Virgem e as crianças estão sentadas numa gruta cuja escuridão é descrita não por uma camada preta de base, mas por uma atmosfera saturada de azuis e verdes frios, com as figuras emergindo dela com a visibilidade gradual de objetos que aparecem através da neblina.

A segunda foi A Última Ceia, pintada entre 1495 e 1498 na parede norte do refeitório do mosteiro dominicano de Santa Maria delle Grazie. Leonardo queria pintar com lentidão suficiente para sobrepor cor, envernizar tons e refazer — nada disso é possível no afresco verdadeiro, em que o pigmento é aplicado sobre o reboco úmido que seca em uma única manhã. Ele inventou uma mistura experimental de têmpera e óleo sobre reboco seco, preparado com gesso e um selante. A técnica permitiu-lhe trabalhar por três anos na mesma parede e proporcionou-lhe a espetacular intensidade psicológica dos rostos dos apóstolos no segundo após Cristo ter anunciado que um deles o trairia. Também começou a descamar ainda durante a vida de Leonardo. A parede foi restaurada sete vezes e é hoje apenas um fragmento da superfície original, mas a composição continua sendo a pintura religiosa mais analisada da arte ocidental.

A terceira grande encomenda milanesa, nunca concluída, foi um monumento equestre em bronze a Francesco Sforza, pai de Ludovico e fundador da dinastia. Leonardo dedicou doze anos ao projeto — projetando a fundição do que teria sido o maior bronze equestre já tentado, modelando um cavalo em argila em tamanho real que exibiu em 1493 para o casamento da sobrinha de Ludovico e produzindo os desenhos sobreviventes hoje em Windsor. O bronze nunca foi vazado: em 1494, com tropas francesas concentradas na fronteira alpina, as setenta toneladas de bronze que Ludovico havia reservado foram derretidas para canhões. Quando as tropas francesas sob Luís XII tomaram Milão em 1499, o modelo de argila foi usado por arqueiros gascões como alvo de tiro e destruído. Leonardo escapou para o sul.

Além desses três grandes projetos, os anos milaneses viram o início de sua prática sustentada de cadernos científicos. Começou a escrever em escrita especular — da direita para a esquerda com a mão esquerda — possivelmente para evitar borrar a tinta úmida, possivelmente para preservar a privacidade de um trabalho incomum o bastante para atrair suspeitas. Iniciou um tratado sobre pintura, um tratado sobre o movimento da água, um tratado sobre a anatomia do cavalo e um tratado sobre o voo, nenhum deles concluído. A Última Ceia havia levado três anos; os projetos inacabados se multiplicavam ao seu redor.

O segundo período florentino (1500–1508)

Após a queda de Milão, Leonardo viajou brevemente por Mântua e Veneza e regressou a Florença em abril de 1500 — dezoito anos depois de tê-la deixado. Tinha então quarenta e oito anos, era famoso e estava sem um mecenas fixo. A República de Florença, restaurada depois da breve teocracia de Savonarola, encomendou-lhe um mural gigante na Sala dos Quinhentos, a câmara do conselho do Palazzo Vecchio: a Batalha de Anghiari, uma vitória florentina de 1440. O jovem Michelangelo recebeu a parede oposta para pintar a Batalha de Cascina. Nenhum dos murais foi terminado. Michelangelo abandonou o seu para atender ao chamado do papa Júlio II em Roma. Leonardo, trabalhando novamente em um meio experimental destinado a permitir a vernização a óleo numa parede, viu que a tinta se recusava a secar adequadamente; tentou aquecer a parede com braseiros de carvão, as partes superiores derreteram e o grupo central sobrevivente se degradou em poucas décadas. O que resta de sua Batalha de Anghiari é conhecido apenas por meio de desenhos preparatórios e da cópia de uma cópia feita por Peter Paul Rubens.

Entre 1502 e 1503, Leonardo passou dez meses como engenheiro militar de Cesare Borgia, o cardeal-tornado-condottiere que esculpia um estado pessoal pela Itália central com o apoio do pai, o papa Alexandre VI. Leonardo viajou com Borgia por Imola, Urbino, Cesena e a Romanha; produziu o célebre mapa aéreo de Imola — uma das primeiras representações cartográficas de uma cidade vista diretamente de cima — e levantou fortificações, portos e travessias de rios. O serviço terminou abruptamente quando Alexandre VI morreu em agosto de 1503 e o regime de Cesare ruiu. Leonardo voltou a Florença.

É neste segundo período florentino que ele começou a Mona Lisa, provavelmente em 1503, encomendada (segundo Vasari) pelo comerciante de seda florentino Francesco del Giocondo para sua esposa Lisa Gherardini. Trabalhou nela intermitentemente por dezesseis anos. Nunca a entregou. A pintura viajou com ele para o norte rumo a Milão em 1508, quando os franceses o chamaram de volta, e prosseguiu até a França em 1516. Estava em sua posse no momento da morte.

Os anos 1503–1508 também viram uma renovação intensa do seu trabalho anatômico. Leonardo dissecava cadáveres pelo menos desde a década de 1480, mas neste período obteve acesso ao hospital de Santa Maria Nuova em Florença e, mais tarde, à escola de medicina de Pavia, onde colaborou com o anatomista Marcantonio della Torre. Por sua própria conta, dissecou mais de trinta corpos de ambos os sexos e de todas as idades, produzindo os desenhos hoje divididos entre a Royal Collection em Windsor e um pequeno conjunto em Turim. Estão entre os melhores desenhos anatômicos já feitos — mais finos, na descrição da relação em camadas entre osso, músculo, vaso e órgão, do que qualquer coisa na literatura médica nos duzentos e cinquenta anos seguintes.

Obras notáveis

O catálogo das pinturas universalmente aceitas de Leonardo é um dos mais curtos entre os grandes artistas ocidentais. A lista abaixo reúne as obras cuja atribuição é essencialmente incontestada pela erudição moderna, em ordem aproximadamente cronológica. Várias peças — o Salvator Mundi mais polemicamente — permanecem em debate. Muitas de suas concepções mais importantes só sobrevivem em versões de ateliê, cópias de seguidores ou em seus próprios desenhos preparatórios.

Anunciação

Anunciação

c. 1472

Galleria degli Uffizi, Florença

Uma das primeiras pinturas independentes de Leonardo, feita ainda quando trabalhava na bottega de Verrocchio. As asas do anjo, observadas anatomicamente, e o porto que recua ao fundo já anunciam seu compromisso com a pintura como ciência da observação.

Ginevra de' Benci

Ginevra de' Benci

c. 1474–1478

National Gallery of Art, Washington, D.C.

A única pintura de Leonardo nas Américas — um retrato encomendado em caráter privado cujo arbusto de junípero (ginepro) é um emblema-trocadilho do nome da retratada. Já mostra sua recusa em delinear a forma com contorno rígido.

Adoração dos Magos

Adoração dos Magos

1481 (unfinished)

Galleria degli Uffizi, Florença

Encomendada pelos monges de San Donato a Scopeto, abandonada quando Leonardo deixou Florença rumo a Milão em 1482. A camada de fundo sobrevive e revela o pensamento compositivo radical — uma multidão de figuras em redemoinho organizada em torno de uma pirâmide central — que moldaria a pintura de retábulos europeia por dois séculos.

Virgem dos Rochedos

Virgem dos Rochedos

1483–1486 (Louvre); c. 1495–1508 (National Gallery, London)

Musée du Louvre, Paris; National Gallery, Londres

Duas versões sobreviventes da mesma composição, pintadas para a Confraria da Imaculada Conceição na igreja de San Francesco Grande, em Milão. A primeira grande obra em que o sfumato e a perspectiva aérea de Leonardo operam juntos para dissolver a fronteira entre figura e atmosfera.

Dama com Arminho

Dama com Arminho

c. 1489–1491

Museu Czartoryski, Cracóvia

Retrato de Cecilia Gallerani, amante de Ludovico Sforza. O arminho é um trocadilho heráldico que remete à Ordem do Arminho de Ludovico e ao sobrenome de Cecilia (a palavra grega para arminho é galée). A pose em três quartos com a cabeça bruscamente voltada foi uma inovação retratística que Rafael logo absorveria.

A Última Ceia

A Última Ceia

1495–1498

Refeitório de Santa Maria delle Grazie, Milão

A pintura religiosa mais analisada da arte ocidental. A composição capta o instante imediatamente após Cristo dizer 'um de vós me trairá' — os apóstolos dispostos em quatro grupos de três, cada um reagindo de forma diferente. O meio experimental começou a descamar ainda em vida de Leonardo; a parede foi restaurada sete vezes e é hoje um fragmento da superfície original.

Homem Vitruviano

Homem Vitruviano

c. 1490

Gallerie dell'Accademia, Veneza

Desenho — não uma pintura — que ilustra as proporções descritas pelo arquiteto romano Vitrúvio. A figura inscrita em um quadrado e em um círculo tornou-se a imagem mais reproduzida da história da arte ocidental fora a Mona Lisa.

Mona Lisa

Mona Lisa

c. 1503–1519

Musée du Louvre, Paris

Retrato de Lisa Gherardini, esposa do comerciante de seda florentino Francesco del Giocondo. Leonardo carregou o painel inacabado consigo por dezesseis anos e por três países, e nunca o entregou. Hoje, a pintura mais visitada do mundo.

Salvator Mundi

Salvator Mundi

c. 1500 (attribution debated)

Coleção particular (paradeiro não divulgado desde 2017)

Uma imagem devocional de Cristo segurando uma esfera de cristal. Leiloada na Christie's em novembro de 2017 por 450 milhões de dólares, então o maior valor já pago por uma pintura em leilão. A atribuição à mão de Leonardo — em vez de à de seu ateliê — segue sendo a mais contestada na erudição renascentista atual.

São João Batista

São João Batista

c. 1513–1516

Musée du Louvre, Paris

A última pintura concluída de Leonardo. A figura do Batista emerge da escuridão total em sfumato extremo, com a mão direita apontando para cima — gesto que Leonardo já havia usado n'A Última Ceia uma geração antes. Levada por Leonardo à França e legada a Salaì.

Cientista, anatomista, engenheiro

Leonardo deixou cerca de 7.200 páginas de cadernos sobreviventes — outrora parte de uma coleção bem maior. Após sua morte, os papéis passaram ao seu aluno Francesco Melzi, que os manteve íntegros por cinquenta anos; com a morte de Melzi, os herdeiros permitiram que os cadernos encadernados fossem desmontados, vendidos em partes e dispersos pela Europa. Estão hoje divididos em códices nomeados, mantidos por bibliotecas e colecionadores particulares. Os cadernos contêm observações em escrita especular e esboços sobre uma gama assombrosa de assuntos, muito poucos deles publicados em vida. Sua redescoberta no século XIX forçou uma revisão da maneira como se entendia a ciência renascentista.

  1. Codex Atlanticus (Biblioteca Ambrosiana, Milão) — 1.119 folhas, a maior coleção isolada, cobrindo mecânica, hidráulica, voo, matemática e guerra; reunido pelo escultor Pompeo Leoni na década de 1580.
  2. Codex Leicester (particular, propriedade de Bill Gates desde 1994) — 72 páginas de observação geológica e hidrológica, incluindo uma notável explicação proto-científica de por que fósseis marinhos aparecem no topo de montanhas.
  3. Codex Arundel (British Library, Londres) — 283 folhas de notas mistas de mecânica, geometria e arquitetura reunidas depois da morte de Leonardo.
  4. Codex Trivulzianus (Biblioteca Trivulziana, Milão) — 51 folhas, incluindo estudos de cabeças grotescas e exercícios de vocabulário latino.
  5. Codex sobre o Voo das Aves (Biblioteca Reale, Turim) — 18 fólios estudando a mecânica do voo dos pássaros como modelo para projetar um ornitóptero humano.
  6. Desenhos anatômicos (Royal Collection Trust, Windsor) — cerca de 600 folhas, incluindo os célebres estudos do feto no útero, dos músculos das costas, das válvulas do coração e dos ossos do pé.
  7. Codex de Madri I e II (Biblioteca Nacional de España) — 192 + 158 fólios de engenharia mecânica e cartografia, redescobertos na coleção da biblioteca apenas em 1965.

A amplitude dos temas é única no período. Leonardo descreveu — entre outras coisas — a ação das válvulas cardíacas quinhentos anos antes de elas serem redescobertas pela cardiologia moderna; esboçou um paraquedas, uma roupa de mergulho subaquático, uma ponte autoportante, um veículo blindado e uma máquina voadora que se aproxima da mecânica da rotação de helicóptero; calculou a resistência de vigas sob carga; desenhou a geologia em camadas dos leitos dos rios e teorizou que os fósseis de animais marinhos nas montanhas italianas provavam que aquelas montanhas haviam estado um dia no fundo do mar — conclusão que o mundo intelectual católico não aceitaria por mais duzentos anos.

Quase nada desse trabalho foi publicado em vida de Leonardo. Seu Tratado da Pintura (Trattato della pittura) foi o único corpo sustentado de sua prosa a entrar em circulação — e mesmo assim só em 1651, mais de um século após sua morte, editado e abreviado por Cassiano dal Pozzo a partir de uma compilação que Melzi havia feito dos escritos de Leonardo sobre arte. Os cadernos científicos permaneceram essencialmente privados até o fim do século XIX e o início do XX, quando a transcrição sistemática feita por Jean Paul Richter (1883) e Edmondo Solmi (1907) os tornou acessíveis. Nessa altura, a maioria das descobertas já havia sido feita independentemente por outros, e o que os cadernos revelaram foi menos um registro de avanços do que o retrato de um tipo particular de mente: a que tratava o desenho como instrumento de pensamento.

Sfumato e o método de Leonardo

A pintura madura de Leonardo define-se por três invenções entrelaçadas. A primeira é o sfumato — a palavra vem do italiano sfumare, dissipar-se como fumaça — em que as transições entre luz e sombra são suavizadas a ponto de quase imperceptíveis. Não há contornos rígidos em sua pintura tardia. Os olhos da Mona Lisa não têm bordas; a sombra que define o canto da boca é construída por talvez trinta ou quarenta veladuras translúcidas, cada uma mais fina que um fio de cabelo, aplicadas com pincéis tão finos que não deixam vestígio visível. A técnica é a antítese da tradição linear do desenho florentino em que ele cresceu e é o fundamento de toda tentativa posterior de representar a carne em pintura a óleo.

A segunda invenção é a perspectiva aérea — também chamada perspectiva atmosférica — em que os objetos distantes ficam mais pálidos, mais azulados e mais suaves de contorno do que os próximos, como o olho efetivamente os percebe através da bruma do ar intermediário. Leonardo não foi o primeiro pintor europeu a usar o efeito, mas foi o primeiro a teorizá-lo explicitamente e a usá-lo como elemento estrutural e não decorativo. As montanhas que recuam na Mona Lisa e na Virgem dos Rochedos operam como um evento óptico separado em relação às figuras em primeiro plano; a pintura se torna um palco atmosférico em camadas, e não um plano uniformemente iluminado.

A terceira é o chiaroscuro: a modelagem dramática das formas pela luz e pela sombra em vez de pelo contorno. Os jovens apóstolos d'A Última Ceia, inclinando-se sobre a mesa no segundo após o anúncio de Cristo, são descritos como massas de luz e sombra cujo peso tridimensional é comunicado inteiramente pela modelagem tonal. Caravaggio, um século depois, e Rembrandt, um século mais tarde, construiriam sua obra sobre o alicerce que Leonardo aqui lançou.

Essas invenções técnicas tiveram um custo. O método de Leonardo era lento — n'A Última Ceia seus contemporâneos relatavam que ele passava meio dia em uma única pincelada e depois se afastava por uma semana sem pintar nada. Deixou um número impressionante de grandes encomendas inacabadas: a Adoração dos Magos, o São Jerônimo, a Batalha de Anghiari, o monumento equestre dos Sforza. Aceitava mais do que conseguia concluir e revisava incessantemente. A Mona Lisa o acompanhou por dezesseis anos porque, em sua própria avaliação, nunca estava terminada.

Últimos anos na França (1516–1519)

Em 1513, Leonardo mudou-se de Florença para Roma, onde seu mecenas era Giuliano de' Medici, irmão do papa Leão X. Os anos romanos foram uma decepção relativa: produziu pouco e foi ofuscado, no Vaticano, pelo Michelangelo bem mais jovem (terminando o teto da Capela Sistina) e por Rafael (decorando os apartamentos papais). Quando Giuliano de' Medici morreu em 1516, Leonardo aceitou um convite que lhe vinha sendo feito havia alguns anos: o rei Francisco I da França ofereceu-lhe uma pensão generosa, uma casa e o título de premier peintre, architecte et mécanicien du Roi.

Leonardo viajou rumo ao norte, atravessando os Alpes no outono de 1516, acompanhado pelo seu aluno e herdeiro Francesco Melzi e pelo seu servidor Battista de Vilanis. Levou consigo três pinturas das quais se recusara a se separar: a Mona Lisa, A Virgem com o Menino e Santa Ana e o São João Batista. Instalou-se no pequeno solar de Cloux — hoje o Château du Clos Lucé — a uma distância caminhável da residência real de Amboise, no rio Loire. Tinha sessenta e quatro anos.

Pintou pouco na França. Uma paralisia no lado direito, depois de um AVC provavelmente sofrido no final de 1517, dificultou-lhe segurar o pincel, embora, como canhoto, ainda pudesse desenhar e escrever. Projetou as festividades para o batismo do Delfim e para o casamento da sobrinha do rei. Planejou um vasto projeto de canal para ligar os vales do Loire e do Saône. Desenhou os estudos para o que pode ter sido uma residência real em Romorantin. Passou longas tardes em conversa com Francisco I, que, segundo se diz, visitava a casa de Cloux por uma passagem subterrânea vinda do castelo real.

Leonardo morreu em Cloux em 2 de maio de 1519, aos sessenta e sete anos. Por seu testamento, redigido algumas semanas antes, deixou o conteúdo do seu ateliê — manuscritos, desenhos, instrumentos — a Francesco Melzi; os vinhedos que possuía nos arredores de Milão ao seu servidor Salaì; as roupas e o dinheiro aos meios-irmãos e à governanta; e as três pinturas a Salaì. Vasari, escrevendo trinta anos depois, afirmou que Leonardo morrera nos braços de Francisco I; o rei provavelmente não estava em Amboise naquele dia, mas a história tem o formato certo, e pintor e rei eram próximos. Foi sepultado na igreja de Saint-Florentin em Amboise. O túmulo foi profanado durante a Revolução Francesa e as relíquias dispersas; o que hoje se identifica como sua sepultura na capela de Saint-Hubert, dentro do castelo de Amboise, é uma reconstrução do século XIX.

Legado e influência

A reputação póstuma de Leonardo foi forjada primeiro por Giorgio Vasari, cujas Vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos apareceram em 1550 e em uma edição ampliada em 1568. Vasari colocou Leonardo no início de seu terceiro e último período — a maniera moderna, a maneira moderna — e usou a biografia para estabelecer um modelo do artista como gênio individual erudito, e não como artesão. A maior parte das anedotas que hoje definem o Leonardo popular vem de Vasari: Verrocchio quebrando os pincéis em desespero, a Mona Lisa sorrindo para os músicos e bobos que Leonardo contratou para entretê-la, a morte nos braços de Francisco I.

Entre os pintores da geração seguinte, a influência direta foi maior sobre os chamados Leonardeschi — o grupo difuso de seguidores milaneses que incluía Giovanni Antonio Boltraffio, Bernardino Luini, Marco d'Oggiono e o próprio Salaì. Sua obra difunde as composições de Leonardo, seu sfumato e seus tipos faciais característicos pelo norte da Itália e além. Rafael, que viu a Mona Lisa em Florença e fez um desenho dela, absorveu a composição piramidal e a pose de retrato em três quartos de Leonardo para o cânone do retrato do Alto Renascimento. Andrea del Sarto e Correggio construíram diretamente sobre o sfumato de Leonardo; Correggio o estendeu para o luminismo suave de suas cúpulas de Parma.

Para além de seus seguidores diretos, a tradição do chiaroscuro que Caravaggio formalizou no fim do século XVI e que Rembrandt aprofundou no XVII descende da invenção, por Leonardo, da modelagem tonal dramática. A redescoberta dos seus cadernos no século XIX — em particular a transcrição sistemática iniciada por Jean Paul Richter em 1883 — produziu a imagem moderna de Leonardo como gênio universal e o emblema popular do próprio Renascimento. Do final do século XIX em diante, é a figura por meio da qual se conta toda história popular da arte europeia.

A cultura de massa nos séculos XX e XXI apenas intensificou tudo isso. A Mona Lisa tornou-se a pintura mais visitada do mundo após o roubo de 1911 (ver o guia da Mona Lisa). O Homem Vitruviano é hoje um ícone de praticamente qualquer instituição que deseje reivindicar uma fusão entre arte e ciência. O Código Da Vinci, de Dan Brown (2003), vendeu mais de 80 milhões de exemplares. A biografia Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson (2017), foi um fenômeno editorial. A atribuição do Salvator Mundi foi leiloada na Christie's em 2017 por 450 milhões de dólares, o maior valor já pago por uma pintura em leilão, com base numa atribuição contestada à sua mão. Tornou-se, talvez mais do que qualquer outra figura histórica, o símbolo popular da própria curiosidade humana.

Por suas próprias palavras

Os cadernos de Leonardo estão cheios de aforismos, observações e conselhos práticos ao aprendiz. As linhas abaixo estão entre as mais citadas; cada uma é tirada dos códices sobreviventes e do Tratado da Pintura. Dão uma ideia do temperamento por trás das pinturas — paciente, exigente e sem complacência quanto à dificuldade do trabalho.

A simplicidade é o máximo da sofisticação.
Attributed; the line condenses a sentiment expressed several times in the Codex Atlanticus and the Trattato della pittura, where Leonardo argues that the most refined art is that which conceals its labor.
O aprender nunca esgota a mente.
Drawn from the Codex Atlanticus, fol. 119 verso — one of Leonardo's many reflections on the nature of intellectual curiosity.
A pintura é poesia que se vê em vez de se sentir, e a poesia é pintura que se sente em vez de se ver.
Treatise on Painting (Trattato della pittura), part of the long defense of the painter's art that argues for painting as a liberal rather than mechanical art.
O ferro enferruja com o desuso; a água perde a pureza com a estagnação. Da mesma forma, a inação esgota os vigores da mente.
Notebook fragment, frequently cited in the early printed editions of Leonardo's writings; the formulation belongs to the Trattato della pittura.
O mais nobre prazer é a alegria de compreender.
Codex Atlanticus, fol. 327 recto — an aphorism that became central to the 19th-century reading of Leonardo as the model of the curious mind.

Influências

  • Andrea del Verrocchio (mestre e pintor da oficina em que Leonardo se formou)
  • Antonio Pollaiuolo (desenho anatômico e estudo dinâmico da figura em movimento)
  • Masaccio (a tradição do chiaroscuro da pintura florentina do quattrocento)
  • A técnica do óleo dos primeiros mestres flamengos transmitida ao sul por Antonello da Messina (veladuras em camadas derivadas de van Eyck)
  • Vitrúvio e a tradição clássica da proporção corporal
  • Aristóteles e a filosofia natural por meio do humanismo florentino

Influência sobre a arte posterior

  • Os Leonardeschi (Boltraffio, Bernardino Luini, Marco d'Oggiono, Salaì)
  • Rafael (composição, sfumato e retratística)
  • Andrea del Sarto e a pintura florentina do Alto Renascimento
  • Correggio e o luminismo da escola de Parma
  • Caravaggio e a tradição do chiaroscuro do século XVII
  • Rembrandt e o Barroco holandês
  • A imagem moderna do polímata — o símbolo fundador do artista-cientista

Onde ver essas obras

  • Musée du Louvre

    Cinco pinturas — a Mona Lisa, a Virgem dos Rochedos (versão do Louvre), A Virgem com o Menino e Santa Ana, São João Batista e La Belle Ferronnière — além de desenhos importantes. A maior concentração isolada de pinturas de Leonardo no mundo.

  • National Gallery

    A versão londrina da Virgem dos Rochedos (c. 1495–1508) e o Cartão de Burlington House — o estudo a carvão em tamanho real para A Virgem com o Menino com Santa Ana e São João Batista.

  • Royal Collection Trust

    Cerca de 600 folhas de desenhos, incluindo os mais importantes estudos anatômicos sobreviventes (o feto no útero, os músculos das costas, as válvulas do coração), os estudos de história natural e os desenhos tardios do dilúvio. Catalogados por Carlo Pedretti e Martin Clayton.

  • Galleria degli Uffizi

    A primeira Anunciação, a inacabada Adoração dos Magos, o Batismo de Cristo de Verrocchio para o qual Leonardo contribuiu com o famoso anjo e diversos desenhos preparatórios dos anos florentinos.

  • Gallerie dell'Accademia

    O desenho do Homem Vitruviano — exibido apenas brevemente e raramente por razões de conservação — junto com um pequeno grupo de outros desenhos de Leonardo.

Perguntas frequentes

Quando Leonardo da Vinci nasceu e quando morreu?

Leonardo nasceu em 15 de abril de 1452 no povoado de Anchiano, nos arredores de Vinci, uma pequena cidade toscana da República de Florença. Morreu em 2 de maio de 1519, no solar de Clos Lucé, perto de Amboise, no vale do Loire, na França, aos 67 anos. Estava a serviço do rei Francisco I da França desde 1516.

Quantas pinturas Leonardo da Vinci terminou?

Menos de vinte pinturas podem ser-lhe atribuídas com segurança, e várias delas estão inacabadas. A lista central universalmente aceita inclui a Anunciação, Ginevra de' Benci, as duas versões da Virgem dos Rochedos, a Dama com Arminho, A Última Ceia, a Mona Lisa, A Virgem com o Menino e Santa Ana e o São João Batista. A atribuição do Salvator Mundi permanece em debate. Muitas de suas composições mais importantes só sobrevivem em réplicas de ateliê ou cópias.

Leonardo era mesmo canhoto e escrevia em escrita especular?

Sim. Leonardo era canhoto e escrevia a maior parte das anotações dos cadernos da direita para a esquerda — com as palavras e letras invertidas, legíveis apenas em um espelho. A razão prática mais provável era evitar borrar a tinta úmida com a mão de escrever, mas o hábito também conferia aos seus cadernos privados uma camada de obscuridade que provavelmente lhe convinha. Cartas pessoais e textos destinados a outros, porém, eram escritos convencionalmente.

Leonardo da Vinci projetou mesmo uma máquina voadora funcional?

Projetou várias. A mais famosa, o chamado parafuso aéreo do Codex Atlanticus (c. 1487), é estruturalmente um parafuso de ar helicoidal, e não um helicóptero verdadeiro, e não teria gerado sustentação se construído na escala em que o desenhou. Seus estudos posteriores no Codex sobre o Voo das Aves (1505) abandonam o parafuso por uma observação mais próxima de como os pássaros realmente voam e propõem um ornitóptero — uma máquina de asas batentes — mais próximo, em princípio, do voo funcional. Nenhuma das máquinas, tal como projetada, teria voado; mas o estudo sistemático do voo das aves que as fundamenta é trabalho científico genuíno.

Leonardo da Vinci era vegetariano?

Quase com certeza era, pelos padrões da sua época. Uma carta de 1515 do explorador florentino Andrea Corsali a Giuliano de' Medici relata que 'certos infiéis chamados Gujerats' não comem 'qualquer coisa que tenha sangue' — e acrescenta: 'como o nosso Leonardo da Vinci'. Anotações nos cadernos sobre a crueldade do abate dos animais reforçam o quadro. Sua prática dietética exata e a rigidez com que a mantinha não são recuperáveis, mas o testemunho contemporâneo é sólido.

Onde posso ver as pinturas de Leonardo da Vinci hoje?

O Louvre, em Paris, abriga a maior concentração de suas pinturas — cinco telas, incluindo a Mona Lisa. A National Gallery, em Londres, abriga a Virgem dos Rochedos londrina e o Cartão de Burlington House. A Última Ceia continua na parede do refeitório de Santa Maria delle Grazie, em Milão, visitável por ingresso com horário marcado. A Galleria degli Uffizi, em Florença, abriga a primeira Anunciação e a inacabada Adoração dos Magos. A Dama com Arminho está no Museu Czartoryski, em Cracóvia, e Ginevra de' Benci, em Washington, D.C. A Royal Collection em Windsor abriga cerca de 600 desenhos.

Leonardo realmente pintou o Salvator Mundi?

A atribuição é a mais contestada da erudição renascentista atual. A pintura foi leiloada na Christie's em novembro de 2017 por 450 milhões de dólares — então um recorde de leilão — como um Leonardo autógrafo. Uma parcela significativa de especialistas, incluindo a National Gallery de Londres (que a havia incluído numa exposição de Leonardo em 2011), aceita o núcleo da composição como de Leonardo. Outros, entre os quais Frank Zöllner e Matthew Landrus, argumentam que o painel sobrevivente é em grande parte obra de seu assistente de ateliê Bernardino Luini ou de outro seguidor, com no máximo algumas passagens do próprio Leonardo. A pintura não foi exibida publicamente desde a venda, e seu paradeiro atual não é divulgado.

Fontes